TEOLINDA GERSÃO
Novelist & Short Story Writer
Sobre a exposição Prelude de Maria Beatitude em Veneza . Outubro 2026
“A primeira imagem é um fragmento: Um pedaço de tapete junto a uma parede cinzento escuro, e sobre ele uma cadeira -amarela – está vazia, e só em parte é visível. É, no entanto, convidativa, tem rodas que permitem movimentos, as costas são flexíveis, e o assento tem no meio uma almofada, ou pelo menos uma parte menos dura.
O tapete é um conjunto de quadriláteros (não exactamente quadrados, mas rectângulos), de várias cores que me parecem frias, e onde julgo que o negro sobressai, mesmo que não seja a cor mais repetida. Teoricamente poderia ser continuado, uma vez que é feito de uma sucessão de pequenas partes, como o tecido do tempo e da vida.
É uma cadeira como muitas outras, portanto acessível a qualquer um que tenha a sorte de encontrar no mundo um lugar sentado.
Na segunda imagem uma mulher acabou de sentar-se, mas ainda não se instalou na cadeira: Num movimento apressado, ainda está a pôr um chapéu na cara e na cabeça, e a parte acima do pescoço, apoiada só num braço, está desconfortável. Aliás a mulher parece ainda estar fora do lugar certo, a cadeira deslizou quase até à extremidade do tapete, e a ponta de um pé e parte de uma das pernas ainda estão fora da imagem. Continuamos portanto no domínio do fragmento.
No entanto a mulher, a cadeira e a parede já formam um conjunto: a roupa e o corpo dela replicam o amarelo da cadeira e o cinzento da parede.
Mas o tapete é um objecto diferente, porque nele as cores são outras :Nenhuma é viva, alacre ou gritante, estamos num ambiente de normalidade, de pessoas iguais a nós, cujas vidas têm coisas boas e más, mas onde não há situações extremas, como tragédias, milagres ou prodígios.

A terceira imagem deixou de ser um fragmento. A mulher, agora visível por inteiro, está finalmente confortável e repousa: o tronco encaixou-se nas costas móveis da cadeira, a cara e a cabeça, apoiadas nos braços, estão protegidas – do sol e de todos os olhares- , o livro aberto deixou de ser lido e foi abandonado acima de um dos joelhos. Agora ela está livre, mergulhada no seu mundo interior, pode pensar, dormitar ou sonhar acordada, é dona desse tempo que não pertence a mais ninguém. Agora é ela o centro (do tapete, do quadro, do seu mundo). O corpo está tão relaxado que um dos pés se apoia instintivamente sobre o outro, e a posição pode ser revertida, para que ambos descansem melhor, alternadamente. Também os sapatos podem ser facilmente afastados, só têm uma pequena biqueira, e o calcanhar está solto.
Enquanto durar ( e ela deseja que dure algum tempo), este é para a “mulher um momento perfeitamente feliz, natural como terra descansando em pousio, para depois reverdescer e se cobrir de frutos e de flores.”

MARIA BEATITUDE | VENICE VENEZA VENEZIA 2026
