“Numa cadeira sobre um tapete aos quadrados”
“On a chair over a checkered carpet”
Luísa V. Lopes, Neurocientista/ Neuroscientist
A mente precisa de pausas. Chamamos a isso tédio — e talvez seja apenas o nome que damos ao instante em que o cérebro desacelera e, por um segundo, deixa que as sinapses se reencontrem sem guião. É aí que germinam as ideias. É aí que o pensamento ganha o direito de divagar.
The mind needs pauses. We call this boredom — and perhaps it is only the name we give to the moment when the brain slows down and, for a second, allows synapses to reconnect without a script. That is where ideas germinate. That is where thought earns the right to wander.
Os neurocientistas sabem que nesses intervalos, quando o mundo exterior silencia, entra em cena a chamada rede em modo padrão do cérebro. É um circuito que se ativa justamente no descanso, tecendo conexões entre memórias, emoções e possibilidades. O tédio, tantas vezes visto como estéril, é na verdade fértil: ele aumenta a criatividade, porque abre espaço para associações inesperadas, para ligações que não surgem sob pressão, mas na deriva.
Neuroscientists know that in those intervals, when the outside world falls silent, the brain’s so-called default mode network comes into play. It is a circuit that activates precisely at rest, weaving connections between memories, emotions, and possibilities. Boredom, so often seen as barren, is in fact fertile: it enhances creativity because it opens space for unexpected associations, for links that do not emerge under pressure, but in drifting.

Nesta exposição, o tapete aos quadrados é mais do que chão: é metáfora. É cenário onde cadeiras vazias aguardam corpos e histórias. Sentar-se é permitir a pausa. É nesse espaço entre um quadrado e outro que o visitante se encontra consigo, como quem reencontra um caderno antigo ou um desejo esquecido.
In this exhibition, the checkered carpet is more than just floor: it is metaphor. A stage where empty chairs await bodies and stories. To sit is to allow the pause. It is in the space between one square and the next that the visitor encounters themselves, as if rediscovering an old notebook or a forgotten desire.

Na parede, dois espelhos enfrentam quem olha: DRAMA e ROMANCE. Não são categorias fixas, mas provocações. Cada visitante, diante deles, transporta os próprios capítulos. O cérebro humano é naturalmente narrativo: organiza a experiência em histórias, criando uma lógica para o que é, no fundo, fragmentado. Que dramas insistem em regressar? Que romances sobrevivem na memória? Aqui, a narrativa já não é só da artista — é também de quem passa.
On the wall, two mirrors confront the gaze: DRAMA and ROMANCE. They are not fixed categories, but provocations. Each visitor, before them, carries their own chapters. The human brain is naturally narrative: it organizes experience into stories, creating a logic for what is, at its core, fragmented. What dramas insist on returning? What romances survive in memory? Here, the narrative is no longer only the artist’s — it also belongs to those who pass through.

Acima dessa zona, obras da série 13 Desejos pairam. Pequenos mapas daquilo que se anseia em segredo, daquilo que se coleciona em silêncio. Há também seis obras menores, ainda com a cadeira: pontos suspensos de introspeção, ilhas de pausa dentro do excesso. Porque a mente, como o corpo, precisa de lugares para simplesmente estar — Dolce Far Niente ou em português corriqueiro ‘Pensar na morte da bezerra’. É nos instantes de divagação que o hipocampo — guardião da memória — arquiva o vivido e o torna disponível para ser recriado em sonho, em imaginação, em arte.
Above this zone, works from the series 13 Desires hover. Small maps of what is secretly longed for, of what is silently collected. There are also six smaller pieces, again with the chair: suspended points of introspection, islands of pause within excess. For the mind, like the body, needs places to simply be — Dolce Far Niente or, in plain Portuguese, “Pensar na morte da bezerra” (daydreaming, idly letting thoughts drift). It is in these moments of reverie that the hippocampus — guardian of memory — archives lived experience and makes it available to be recreated in dream, in imagination, in art.

Numa outra parede, compêndios e diários repousam em caixas de acrílico. Arquivos de memórias, fragmentos de observação, restos de pensamento que se recusam a desaparecer. São testemunhos de que lembrar é também arquivar, e arquivar é um modo de resistir.
On another wall, compendiums and journals rest in acrylic boxes. Archives of memories, fragments of observation, remnants of thought that refuse to disappear. They bear witness to the fact that remembering is also archiving, and archiving is a form of resistance.

E no centro, sob campânulas, as Narrativas que não tiveram um fim. Porque nem toda memória encontra desfecho. Algumas histórias permanecem em suspensão, sem se materializar. E, ainda assim, carregam um peso real — serão identidades, narrativas, lugares, sonhos?
And at the center, beneath glass domes, the Narratives Without an Ending. For not every memory finds closure. Some stories remain suspended, never fully materializing. And yet, they carry real weight — are they identities, narratives, places, dreams?
O que permanece após o tédio não é vazio, mas possibilidade. Nesta sala, entre quadrados, cadeiras e silêncios, cada visitante é convidado a ouvir a sua própria memória. E talvez descubra que, ao deixar-se sentar sem pressa, encontra também os seus próprios desejos, dramas e romances.
What remains after boredom is not emptiness, but possibility. In this room, among squares, chairs, and silences, each visitor is invited to listen to their own memory. And perhaps discover that, by allowing themselves to sit without hurry, they also uncover their own desires, dramas, and romances.
Luísa V. Lopes,
Neurocientista/ Neuroscientist
Permanece aqui gravado o convite e o elogio intemporal: à obra e à criatividade de Maria Beatitude, artista de merecida e enorme admiração, e à pessoa, pela qual nutro igual e profunda estima.
Here remains inscribed the timeless tribute and invitation: to the work and creativity of Maria Beatitude, an artist of well-deserved and immense admiration, and to the person herself, for whom I hold equal and profound esteem.

Catálogo exposição Galeria da Biblioteca Santa Maria da Feira | Exhibition catalog of the Santa Maria da Feira Library Gallery

