“Cérebro, o lugar da memória.”
10 ANOS DO BANCO PORTUGUÊS DE CÉREBROS _ Exposição nas galerias da Reitoria da Universidade do Porto.
É o cérebro que controla a maioria das nossas atividades, tais como a motora e a sensorial, ao mesmo tempo que processa e coordena todas as informações, externas e internas. Enquanto tal, é um complexo objeto de investigação, para a qual o Banco Português de Cérebros contribui.
Mas o cérebro é também o órgão que abarca o sistema nervoso central. É o lugar do pensamento, das emoções e da memória, sendo sobretudo aqui que se centra o interesse da artista Maria Beatitude e de onde emerge a sua contribuição para a presente exposição na Reitoria da Universidade do Porto.
Entenda-se que o ato de lembrar, ou evocar, dá-se assim que o agora passou. Nessa mesma imediaticidade, o presente converte-se em passado, o presente torna-se ausente. Transita-se, então, da presença à ausência, por meio de uma instantânea transferência de “o que é” para “o que foi”.
Paralelamente, há uma consciência autonoética, tal como nomeada pelo psicólogo Endel Tulving, que consiste na nossa capacidade de nos colocarmos tanto no passado, por exemplo, numa memória episódica, como no futuro. Aí, reside o que apelamos de “viajar no tempo”, viagem mediante a qual se propicia tanto a autoconsciência quanto a autoprojeção.
Ocorre que toda a deslocação mental no tempo e todo o ato de rememoração requerem esforço, sendo este exercício operado, justamente, pelo cérebro. É ele que tudo retém e regista, retenção e reprodução que auxiliam a lembrança ou a recordação, constituindo-se, a partir daqui, a memória. Portanto, o cérebro constrói e preserva a memória e, como tal, de certo modo compõe a nossa história. Ora, é precisamente em histórias e em memórias que se sustenta o trabalho de Maria Beatitude.
Entendendo que a vida é constituída por recordações e projeções, a artista desenvolveu a obra “Linha de Vida” que, apesar de deter uma constituição reta, agrega uma série de curvas e emaranhados de inúmeros rolos de papel.


Nestes últimos, encontram-se mensagens, relativas a projetos de vida, passados e futuros.
Entretanto, faça-se a ressalva de que o cérebro também se engana, não é infalível, pois embora retenha a memória, também a reconstrói e a modifica de acordo com as perspetivas e as experiências. Situa-se, aí, uma das suas fragilidades, sendo também estas que preocupam e inquietam a artista, nomeadamente a fragilidade da própria vida.
Sugere-se, então, uma segunda leitura para a disposição desta primeira obra em fileira: a procura, ou mesmo o desígnio, de reorganizar e reestruturar a vida e o tempo vivido.

Mais adiante, com a outra obra que nos apresenta, “Cérebro. O que guarda?”, a artista remete para os campos da consciência e do inconsciente e para os efeitos que diversos pensamentos têm sobre nós. Destaque-se o sofrimento, coisa tão física quanto mental, prova da intrínseca relação entre o corpo e a mente, decorrente de uma articulação e de uma conjugação que se operam, também elas, no cérebro.

Sob a forma de um painel com um conjunto de diferentes pinturas e enunciados que remetem para vários estados de espírito, explorados ora com seriedade, ora com leveza, desdobra-se uma composição dinâmica, criativa e diversificada. Há, porém, um fio condutor e unificador, uma segunda linha que a artista introduz nesta exposição e que se afigura como que suspensa, percorrendo e trespassando toda a obra.
Um outro elemento é convocado nesta peça, o neurónio-espelho, aquele que, por meio da visão e do movimento, reproduz o comportamento do outro. A esse, a artista dá particular relevância, sobretudo mediante a possibilidade inicialmente contemplada pelos neurocientistas de, a partir dele, desenvolver-se a empatia. Isto porque, ao vermos o outro, vemo-nos em relação ao outro, vemo-nos no outro.

Por fim, com a inclusão de dois espelhos entre pinturas, Maria Beatitude interpela-nos e confronta-nos, desafiando-nos a debruçarmo-nos sobre nós mesmos. Simultaneamente, por meio destes reflexos, cruzamo-nos com a obra, imergimos nela, integramo-la. De certo modo, pelos espelhos, acolhemos em nós o trabalho da artista. Trata-se, no fundo, disso mesmo, de acolher. Até porque, recordar é também acolher. Acolher lembranças, acolher o passado, acolher a memória.
Constança Babo
