GONÇALO M. TAVARES

ESCRITOR

SOBRE A OBRA DE MARIA BEATITUDE


1 Maria Beatitude, nome invulgar, que logo provoca estranheza; uma artista que trabalha com diferentes materiais e escalas. Pintura e outros assuntos. E os outros assuntos são muitos.

Um dos projectos onde a linguagem é central chama-se: “amplas cartas de amor”.

Uma frase com letras bem grandes e quase infantis, escrita em cartão que, depois de desdobrado, adquire a dimensão humana. Uma frase com dois metros de altura, isso mesmo, e em material simples. Uma carta que quando aberta faz desaparecer o corpo atrás de si. Uma frase que sozinha tapa um bípede com os braços abertos.

Um bípede humano e cuidadoso que envia, em material de embrulho e letras, a hospitalidade possível nestes tempos duros.

Uma carta é um objecto sem dono: vai de um lado para o outro: é esse o objetivo. O emissor é Maria Beatitude, os recetores são muitos e provavelmente estão sós de mais.


2 Nas pinturas da Maria Beatitude, as mulheres ocupam as telas, mas não só.

Na série “Diving and fishing”, por exemplo, corpos inteiros – ou mãos com luvas brancas – colocam um peixe como protagonista; mãos femininas que agarram num peixe na posição de quem escreve com ele, de quem mede com ele. Peixe-que-escreve, peixe-régua, etc.

Muitas vezes isto: uma certa estranheza nos quadros; um pequeno elemento que desassossega no meio de cores que pareciam anunciar calma.

É uma pintura de figuras, quase sempre femininas, e de cores que formam uma paisagem de onde emerge fortemente um corpo.

Também na série “Brincadeiras e abstrações” surge a figura da mulher, uma extraordinária cor de fundo, e um ou outro elemento que causa estranheza, neste caso: um chapéu de papel na cabeça da figura que parece direita e reta; ou um pequeno urso de peluche na mão elegante; ou ainda, uma venda nos olhos de uma mulher, já de idade, que joga um estranho jogo de cabra-cega com as cores. Como se estas, as cores, se tivessem escondido da protagonista do próprio quadro.

Na obra e nestes quadros: cor, figura e traquinice. 

Gonçalo M. Tavares 

Jornal de letras, artes e ideias | JL nº1320 | Maio 2021