Professor de Física da Universidade de Coimbra

SOBRE O “ARQUIVO PARTICULAR DE VIDA” de Maria Beatitude
Tive pena de não ter podido visitar a exposição «Percurso Remémoro» de Maria Beatitude no Museu Internacional de Arte Contemporânea, em Santo Tirso, que incluía a instalação “Arquivo particular de vida”. Falo desta última apenas pelas imagens que me foram proporcionadas, sabendo bem que a arte perde com a distância dos sentidos.
Na instalação, um conjunto disposto numa rede de malha rectangular é feito de envelopes pardos convenientemente atados com «dizeres» identificadores. Nas paredes em redor estavam imagens de envelopes em grande, ainda com «dizeres». E que dizem os tais «dizeres»? Indicam as repartições da memória onde a artista coloca os seus pertences documentais. Por exemplo e um pouco ao acaso:
– «coisas pelas quais estou grata – parte 1»
– «receitas aviadas de medicamentos que nunca vou tomar»
– «lista de pessoas que gostava de embrulhar e ter sempre no bolso»
– «registos de uma pandemia que nunca pensei viver Covid -19 – Março 2020»
– «transcrição de sonhos»
– «coisas que adorava que não tivessem acontecido»
– «cartões pessoais do meu bisavô na I Guerra Mundial»
Trata-se, portanto, de um inventário de memória. O tempo é, foi sempre e sempre será, o grande fornecedor da arte. O tempo passado, uma vez que é da memória do artista que a arte se alimenta: ele viveu a sua vida. O tempo presente, uma vez que é nele que, em cada momento, a arte, tal como a vida, se faz. E o tempo futuro, pois em cada obra de arte há uma ânsia de futuro.
Maria Beatitude juntou no mesmo plano – chamemos-lhe o plano do presente – os vários envelopes da sua memória, com conteúdos uns mais antigas e outros mais recentes. Nessas gavetas estão, como revela a lista, a gratidão, a renúncia, o amizade e o amor, as afições, as fantasias oníricas, os arrependimentos, e as recordações de família. Todos nós temos essas gavetas – e outras semelhantes – onde guardamos, bem atados, fragmentos dispersos do nosso passado. Os nossos eus são os conjuntos desses múltiplos mistérios, pessoais e intransmissíveis. Sendo a vida evidentemente desordenada – cada um de nós tem o seu caos particular – há sempre uma pulsão de ordem no trabalho de arquivo. No caso a pluralidade que habita a artista está sujeita a uma ordem exterior do domínio do geométrico.
Confesso que adoro arquivar: não tanto o meu caos interior, que também o tenho, mas papeis, livros e objectos. Tenho a paixão dos catálogos e das listas. Talvez isso seja defeito profissional: ser cientista é tentar reconhecer uma ordem no aparente caos do mundo. Compreendo, ou pelo menos julgo que compreendi, quando acabo de arrumar as ideias que tinha. A mensagem principal de toda a história da ciência é que existe uma ordem escondida dentro do caos. Apesar de o homo sapiens ser parte do mundo, forçoso é reconhecer que se trata da parte do mundo mais dominada pelo caos e, portanto, mais difícil para a ciência.
Quando queremos organizar a memória no plano do presente estamos sempre confrontados com o grande problema do tempo: Porque é que o tempo se divide em passado e futuro, com uma ténue fronteira entre uma e outra? Porque é que nos lembramos do passado e não nos lembramos do futuro? A ciência, em particular a física, tem grande dificuldade em responder a esta questões. Contamos o tempo com relógios, mas não sabemos bem o que ele é. Os físicos tomam o tempo como uma variável nas suas equações, mas sabem bem que ele está também na literatura e na artes visuais: por exemplo, no livro «Em busca do tempo perdido» de Marcel Proust, ou no quadro «Desintegração da persistência da memória» de Salvador Dali, no qual descortino afinidades com o «Arquivo particular de vida». O tempo pode ser perseguido tanto pelos físicos como pelos artistas, escapando a uns e a outros.
Há cem anos, o físico Albert Einstein entrou numa polémica com o filósofo Henri Bergson sobre o significado de tempo. Bergson não conseguia aceitar o tempo dos relógios de que falava o autor da teoria da relatividade e que matematicamente era descrito por um «espaço-tempo» a quatro dimensões, porque estava apegado ao tempo psicológico, o tempo subjectivo, o tempo que todos carregamos connosco, uma matéria nebulosa feita de lembranças e afectos.
É sempre temerário interpretar uma obra de arte, mas eu atrever-me-ia a dizer que na instalação de Maria Beatitude coexistem a ordem de Einstein no arranjo espacial dos envelopes – o mundo é geométrico, como antes de Einstein afirmaram Euclides e Einstein – e também a desordem de Bergson – o mundo interior é um amontoado infome. A arte tem o enorme mérito de desafiar a física e a filosofia, contribuindo para uma apreensão mais completa do mundo.
2021
