Historiadora de arte contemporânea, professora universitária, ensaísta e crítica de arte.
A amplitude do projecto Amplas Cartas de Amor (2020)
É um projecto artístico de Maria Beatitude. Trata-se de mensagens afectuosas e coloridas, realizadas em grande escala (140 x 98 cm) que, contudo, e num efeito surpresa, são remetidas dentro de um envelope de tamanho convencional a alguém idoso que se encontra num lar. Esta é a sua primeira amplitude, relacionada com a materialidade efectiva, plástica, formal, do objecto. A outra amplitude tem, naturalmente, que ver com a dimensão emocional e afectiva do trabalho em questão. E esta dimensão é francamente relevante, numa época em que a COVID-19 colocou o mundo num estado pandémico, perigoso e incerto.
Como se sabe, a situação de fragilidade dos idosos nos lares é inquietante. E não apenas pela sua condição de fragilidade natural, mas porque as medidas sanitárias alteraram as relações humanas, o toque, a proximidade, as demonstrações de afecto. Normalmente, a visita aos idosos passou a ser mediada por um vidro e por máscaras. Tudo fica ainda mais dificultado com a diminuição da audição e da percepção das palavras. Por vezes, esta situação pode tornar-se frustrante e até cruel. As pessoas encontram-se no final da vida e privadas da afectividade dos seus, por tempo indeterminado. O que torna tudo francamente mais dramático e triste.
E, neste contexto, projectos como Amplas Cartas de Amor têm todo o sentido e consequência. Ou seja, a arte pode ser pura fruição, poesia, especulação, mas também pode constituir um território orgânico e funcional, no sentido de assumir uma espécie de missão afectiva e sociológica de fundo, importante e implicativa, capaz de se afirmar como uma componente de acção directa na vida de alguém. A arte, na verdade e a seu modo, pode salvar. Literalmente. Aliás, e neste caso, a palavra chega ao seu destino em forma de objecto artístico. As palavras assumem a sua condição de objecto estético e plástico. São três, portanto, os níveis de leitura deste projecto: verbal (conteúdos), emocional (afectos) e plástico (obra).
O entendimento da obra de arte – e sobretudo depois dos experimentalismos relacionados com a neovanguarda internacional dos anos 60 e 70 –, tornou-se implicativo no seu pressuposto de relação estreita entre a Arte e a Vida. De algum modo, e na liberdade que caracteriza a produção artística contemporânea, este binómio é livremente (re)visitado. Este trabalho de Maria Beatitude representa uma forma de revisitação, na ligação estreita, e aqui claramente importante, da arte com os afectos e com a memória que, existindo numa escala individual é passível de se reportar a uma escala de sentir colectivo. E o sentido da arte também é esse.
2021
